Crianças no jardim
Eram crianças. A altura e o tamanho dos peitos, ainda em príncipio de formação, atestavam o fato. Oito ou nove anos, no máximo. Mas se fechasse os olhos e apenas escutasse o que elas diziam podia jurar tratar-se de três mulheres amarguradas. Se visse apenas os seus olhos sérios e enraivecidos também teria a mesma impressão. Brigavam por causa de uma caixa de chiclete.
- Puta.
- Piranha.
- Vadia.
Três crianças.
- Diz que foi você. Todo o dinheiro do dia tava lá.
- Tá, eu me arrumo pra conseguir outro.
- Se fode aí então, vaca.
- É a sua mãe, nojenta.
-Posso ser nojenta, mas pelo menos não dou o cu na frente dos outros.
Três crianças num ponto de ônibus.
- Ah tá, mas pagou boquete pro meu irmão atrás da banca, que todo mundo sabe.
Três crianças num ponto de ônibus, meia- noite.
- Tu vai arrumar dinheiro como, ô vadia.
Três crianças num ponto de ônibus, meia noite e ela.
- Tia, me arruma um trocado.
- É, facilita aí.
- Só um trocado.
O desespero que já vinha desde o começo da conversa aumentou, a piedade se transformou em medo. A mulher agarrou sua mochila, indecisa.
-Porra, tia.
As crianças a cercaram. Abriu a bolsa. Podia ter corrido, podia ter chamado um táxi, feito sinal para um ônibus que passou veloz, mas abriu a bolsa. As meninas tomaram a carteira antes que tivesse tempo de pedir os documentos. Quando principiavam a correr um carro da polícia, vindo não se sabe de onde, as interceptou. “Não é que às vezes a polícia serve pra alguma coisa?”- pensou- O policial devolveu a carteira à mulher que respondeu com um sorriso agradecido. Primeiro chute. No ventre. Segundo chute, do outro policial, no rosto da menina que perdera a caixa de chicletes.
Ela, estática.
Terceiro chute, sangue. Disse a meia voz, mas o esforço para que as palavras saíssem era tão grande que por dentro era como se gritasse o mais alto possível:
-São só crianças...
- Criança, nada, isso aqui é raça ruim.
- Vocês não podem fazer isso.
- A senhora preferia ficar sem a sua carteira?
A mulher pensou que se aproximava o fim do mês, dinheiro apertado. Pensou no trabalho que daria tirar novos documentos. Pensou... E percebeu, assustada consigo mesma, que não sabia o que preferia. Foi trazida de volta à realidade pelo grito de um dos policiais.
- Filha da puta!
Uma das meninas tinha fugido. Enquanto o policial enfiava as outras duas no carro resmungou:
- É nisso que dá dar mole. Ou apanha ou vai continuar assim.
O automóvel partiu, veloz. A mulher suspirou, segurando, aliviada, a carteira. Teve vergonha do seu alívio, mas não podia negá-lo. Pensou nas crianças. Pensou na carteira. Sentou novamente no ponto de ônibus e atrás de um enorme papelão viu a caixa de chicletes.

4 Comments:
Que história triste..mas o pior é que é a mais pura realidade em que vivemos... snif...
Quando vc lançar seu livro me fala,tá? hehehehe Dessa vez EU fui a primeira..hahahaha(muito boba essa menina!!)
Beijão
Bruna
Gostei amiga!
Acho que teria alguns comentariozinhos básicos, mas prefiro fazê-los ao vivo...
Bjusss
Mi.... tô perplexa aki...
Perplexa, não surpresa. Simplismente enojada com a nossa própria natureza... Não queria ter visualizado a cena assim... Mas essa situação, DECERTO, não nos soa tão estranha, incomum.
Bem, triste... QUERO ATENDÊ-LAS NA PEDIATRIA. Droga...
Descontraindo um pouco: agora vc tem 'blog' e eu 'flog'... NEEEERDS. Só isso que tenho a dizer... PRÓXIMO PASSO?! PARAR DE SAIR, para gastar tooooooooooodo seu tempo na frente dessa bosta viciante que é essa máquina... só se for! rs... TE AMO, MI!
Beijos!
PS: www.fotolog.net/inesjobim ! neeeerdss....
Já que mandasse o e-mail do convite, resolvi ver teus escritos.O que passa é que não li outros textos, apenas este. E gostei. Parabéns, pela iniciativa de escrever. Se se escrevia em diários, já não se faz mais isso em troca de 'catação de milho' no teclado do computador, mas o objetivo é o mesmo, expressar, por metáforas aquilo que está dentro de cada um, colocar os sentimentos para fora e ser visto para não se sentir só e compartilhar emoção, deixar de traçar rumos na memória sem 'riscar' em algum lugar que possa ser visto, lido e relembrado. Acho incrível esse negócio de ficar escrevendo o desvaneio do pensamento e colocando, a busca, a intenção do leitor para paralelos com o real, e sem compromisso. Hoje o que mais se faz é escrever, se escreve isso e aquilo, disso e daquilo outro, e cada vez mais racionalizado, lógico e acadêmico, podes ver que todo texto, no rodapé tem uma referência acadêmica para dizer que está certo ou uma notícia é referendada por um acadêmico para referendar ou reorganizar a repetição da burrice que os jornalistas fazem, e que é difícil, encontrar coisas de sentimento mesmo. "O homem se torna cada vez mais chato, menos humano, mais razão", quando Thomas Hobbes disse que o homem deixaria a 'sua máquina' para delegá-la ao Estado, esqueçeu que o sentimento é aquilo que pode pingar na engrenagem e acabar enferrujando tudo, mesmo com muita graxa nessa máquina que funciona aos tropeços.
Sério...acredito nos sonhos, baseado em verdades; creio no comunismo, baseado na luta e necessidade do trabalhador; penso no diferente, por negar o igual; as vezes só esqueço de confiar em mim mesmo, aí que vemos como somos fracos, mas há que pensar que muita coisa concorre para não pensar em lutar. E o mesmo acontece com os problemas dessa cidade, do mundo, do meu bairro, meu prédio e de minha casa. A polícia é militar, não tem respeito, anda armada, o pior de tudo é que não 'mete mais respeito' mas medo, principalmente no pobre, coitado. E acaba que as pessoas vão ficando com medo, eu percebi isso. Quando cheguei no Rio, vim com a imagem da mais pura abertura das pessoas, e passa que encontrei pessoas com o sentimento esgotado de medo. "O carioca é um povo com medo". Vê-se no õnibus o pânico se um grupo de negros entra nele; a agitação dos camelôs para sobreviverem sem ser massacrados pelos guardas municipais; quem pode tem seguranças, cara feia é praxe para intimidar os tímidos(de $$);a mulher não pode sentir alguém andando atrás dela que agarra a bolsa como pode; o olhar das pessoas é atentos e sorrateiro; não há profundidade no ver, com medo de distração com os objetos; a noite cai, e nos privamos da liberdade de ir a certos lugares ou a boa parte deles. Oras, vive-se aprisionado, toda coisa é privada, quem pode se esconder, o faz - vai para condomínios fechados e esquece que o resto existe(conheci um garoto de 14, da Barra que já foi a Miami e Londres, mas só passou pelo centro do Rio para ir até o aeroporto).
Bom, em outro momento discorro mais. Desculpa se escrevi muita merda.
Ah, acabei de ver um filme, muito bom. 'O trem da vida', dá pra ver que o mais louco é o pensador e o grande idealizador do que foi o fio condutor de todos, mesmo sendo o mais escrotado entre os homens.
Tudo de bom,
Até mais.
Luiz Carlos
Post a Comment
<< Home