Sunday, July 07, 2013

Aeroporto

Eu queria
que esse mês passasse
em um dia

Thursday, June 27, 2013

Massa corrida e tinta branca

Você foi embora
e eu pensei que levava tudo:
roupas, beijos, discos, quadros.
Mas ficaram os buracos na parede

lembrando os espaços que ainda são seus. 

Saturday, May 11, 2013

Seco a pia.
Fecho torneiras.
Entorno garrafas.
Esvazio aquários.

Não adianta.
Chove é do lado de dentro.

Thursday, May 09, 2013

Fim


Selaram a última caixa.
Trancaram as portas.

E até a lua sumiu do céu.  

Estrelinhas


 "Não importa o que se passe na sua cabeça, você tem que pagar as contas. Assim é a vida."

Não que ela pensasse assim, mas se orgulhava de ter conseguido formular uma frase dessas, tão diferente de si mesma. Era o Retorno de Saturno, era a maturidade, era o aluguel, era o fim de suas baboseiras existencialistas, era a vida adulta, Yes, Yes, Yes.  

"Não importa o que se passe na sua cabeça, você tem que pagar as contas. Assim é a vida."

E, no caso, pagar as contas significava acabar a tradução de um texto em francês sobre um novo tipo comportamento dos mouriscos, talvez devido às recentes alterações climáticas, talvez por uma mutação natural da espécie blábláblá.  

Mas em determinado momento pareceu que fazia o impossível, como se todos os caminhos recentemente escolhidos fossem equivocados. Ela estava indo tão bem e agora isso.
Sem saber por onde seguir ficou cinco horas desenhando estrelinhas nas linhas das mãos. Só para ver o se o tempo passava e esquecia dela. Mas ele não esquece. Quase de manhã, resolveu que precisava voltar aos mouriscos.

Antes lavou as mãos. Passou sabonete, mas as estrelinhas continuavam lá. Passou álcool, passou baba, passou acetona. Uma mão de estrelinhas. Estava bonito, bonito mesmo. E amanhã quando tivesse que entregar a tradução ao seu chefe, diria: não pude, olha só. E mostraria as mãos machadas. Ninguém consegue pensar com as mãos assim. Parecia compreensível. Foi dormir. Não sem antes desenhar uma estrelinha, a última do dia. 

Cabra-cega



Risca o poema
Que dá a resposta
Que a alma
(cega)
cala
          e vê

Tuesday, October 09, 2012

Verdades inconcebíveis ou Não se deve falar de amor na cozinha

“Amo ela,
Manuela“

E a moela

queimou.

Saturday, November 26, 2011

Depois

Todas as palavras já foram ditas. Todos os beijos, gastos.

Todas as esquinas foram visitadas. Todas as noites acordaram.

E eu continuo sentada na mesma poltrona vermelha em frente ao pôr-do-sol daquele domingo. Como se você ainda fosse o que resta ao meu lado.

Monday, November 21, 2011

Quase

Uma manhã quente e a descoberta: te esqueci.
Ou seja, podia ser feliz e calma e terna e prudente e sensata e honesta e forte.
Podia ir à praia, ao cinema, ao teatro, podia ficar em casa.
Te esqueci. Que dia é hoje? Anota o dia, que é importante.
O dia do começo de todos os dias de uma vida nova e cheia de momentos incrivelmente transbordantes de clichês e felicidade. Pensei em comprar girassóis e vestir uma roupa branca só para comer uma torrada com margarina sorrindo para a câmera, mesmo sem câmera. Não importava: te esqueci.
Tarde inteira: te esqueci.
No começo da noite, tive medo de ser mentira. Mais tarde vi que não precisava: te esqueci.
Dormi: te esqueci?
Ficou só silêncio. De repente, chegou o teu nome. Você não foi mais embora de mim.

É que
o seu cheiro ainda desliza pela barra da minha saia
a sua voz ainda sussurra no meu ouvido
a sua língua ainda treme na minha boca
é o seu coração que ainda bate no meu peito.