"Não importa o que se passe na sua
cabeça, você tem que pagar as contas. Assim é a vida."
Não que ela pensasse assim, mas
se orgulhava de ter conseguido formular uma frase dessas, tão diferente de si mesma.
Era o Retorno de Saturno, era a maturidade, era o aluguel, era o fim de suas
baboseiras existencialistas, era a vida adulta, Yes, Yes, Yes.
"Não importa o que se
passe na sua cabeça, você tem que pagar as contas. Assim é a vida."
E, no caso, pagar as contas
significava acabar a tradução de um texto em francês sobre um novo tipo comportamento
dos mouriscos, talvez devido às recentes alterações climáticas, talvez por uma
mutação natural da espécie blábláblá.
Mas em determinado momento pareceu
que fazia o impossível, como se todos os caminhos recentemente escolhidos fossem
equivocados. Ela estava indo tão bem e agora isso.
Sem saber por onde seguir ficou
cinco horas desenhando estrelinhas nas linhas das mãos. Só para ver o se o
tempo passava e esquecia dela. Mas ele não esquece. Quase de manhã, resolveu
que precisava voltar aos mouriscos.
Antes lavou as mãos. Passou
sabonete, mas as estrelinhas continuavam lá. Passou álcool, passou baba, passou
acetona. Uma mão de estrelinhas. Estava bonito, bonito mesmo. E amanhã quando
tivesse que entregar a tradução ao seu chefe, diria: não pude, olha só. E
mostraria as mãos machadas. Ninguém consegue pensar com as mãos assim. Parecia
compreensível. Foi dormir. Não sem antes desenhar uma estrelinha, a última do
dia.