Utopia da frigideira
- Arranjei outra. Vim arrumar minhas malas, não volto nunca mais.
- ...
- E você?
- Eu?
- Não faz nada?
- Vou fritar dois ovos, enquanto espero para ver se não muda de decisão.
- Se não mudar?
- Como os ovos sozinha.
- Arranjei outra. Vim arrumar minhas malas, não volto nunca mais.
Entrou na casa cheia de luzes coloridas e pessoas esfumaçadas já com a certeza de que devia ter ficado em casa dormindo. Mas depois do terceiro copo de um drink verde e doce demais passou a achar que talvez ele não fosse a única pessoa interessante do mundo. Passou a gostar da música que tocava. Passou a deixar que outros olhos demorassem-se sobre ela, retribuindo da mesma forma. Sorrisos, cigarros, algumas palavras sobre um assunto qualquer e então sua boca se encontrou desajeitadamente com a de alguém cujo nome preferiu não conhecer. Trocavam beijos enquanto ela pensava nele e ficava triste e ficava feliz e ficava com medo e ficava com raiva e ficava com saudade e ficava com tesão e ficava com sono. Continuava mexendo a língua para cima e pra baixo, alternando mordidas nos lábios com movimentos circulares às vezes rápidos, ás vezes lentos. Parou para respirar e teve um pouco de nojo de se saber misturando saliva com um qualquer um, mas depois passou. Pernas estáticas, braços molengos ao longo do corpo, coração batendo acelerado, não pelo momento presente, mas por todos os momentos que já não eram mais. O rapaz elogiou seu vestido novo, que comprara especialmente por não trazer nenhuma recordação dele, o que acabou nem adiantando, pois só conseguia imaginar o seu olhar se a visse assim tão linda. Permaneceu colada ao outro até que o efeito do álcool foi lentamente se diluindo, assim como o que ainda podia restar de desejo. Empurrou o rapaz de olhos azuis e sorrindo disse tchau. Procurou as amigas pelos cantos escuros e como não as achasse foi embora sozinha, certa de que por enquanto não havia espaço para mais ninguém.