Thursday, March 15, 2007

Gotas

Passei por uma esquina e lembrei de você. É que havia um mendigo fumando um charuto sentado no chão logo depois da curva para a rua seguinte e ele cantava sua música preferida. Ele vestia trapos de todas as cores, fedia e me lembrava você. Quase amei o mendigo por alguns instantes. Depois fiquei pensando em como podia te ver em alguém tão diferente, você sempre com seus ternos impecáveis, sapatos brilhantes e palavras polidas. Não importa, os dois fumam charuto cantando "A Hard Rain's Gonna Fall”.

Foi assim que comecei a pensar que talvez você não seja o homem mais especial do mundo, que talvez você seja igual a todos os outros. Igual a uns pelo charuto, a outros pelo perfume, a outros pelo tamanho do pau. Mas de alguma forma igual. Desde então parei de procurar nos outros alguma coisa que me lembrasse você, para procurar em você o que há de igual aos outros. Está dando certo. Assim, de longe, você está me parecendo qualquer um.

Friday, March 09, 2007

Poço

Já completava aniversário o tempo em que se conheciam e tudo continuava sendo nada. Havia dias em que ela não conseguia pensar em outra coisa a não ser ele, dizer outra coisa a não ser ele. Acordava, caminhava, escovava os dentes, sonhava: ele. E mesmo assim, nada.
Mas agora ela já começava a entender: é que eles precisavam do não-ser para que o sentir pudesse ser assim tão forte.
Engraçado o desfalecimento do mundo que acontecia na sua presença, capaz de anular tudo à sua volta, inclusive a ela mesma, que ficava apática, olhos baixos e sem vontade aparente enquanto que a vontade de dentro era de que colassem seus corpos e fossem felizes para sempre, apesar de que o para sempre não existe e talvez sequer o felizes.
Lembrava das vezes em que se beijaram (beijos também faziam parte do nada que os unia) e era tanto querer que as bocas se encontravam mornas, quase sem língua, quase sem vontade. Engraçado porque pensando depois e pensando antes, deveria ser assim como num filme lindo em que o casal se beijabeijabeijabeijabeija, afinal eles amavamamavamamavam. Mas não. Os dois se portavam feito quase crianças atrás do muro do colégio, que não sabem onde colocar a mão, o braço, a língua, o coração, quando beijar, quando parar e os beijos viravam assim uma espécie de desencontro de almas que expressava bem o que eram os dois juntos. Um desencontro e por isso mesmo tão amalgamado e duradouro.

Então talvez precisassem mesmo ficar longe para não ser tão perto, para não ser tão forte, para não ser, porque afinal de conas não é. Mas é. É um coração pegando fogo, uma palavra que não consegue virar som, é um sonho que se repete, é um abraço sem fim, é uma raiva que não se acaba, é um ciúme que não se cabe, é um amor que não se sabe. Mas que no fundo no fundo só sabe de ser amor.