Saturday, May 11, 2013

Seco a pia.
Fecho torneiras.
Entorno garrafas.
Esvazio aquários.

Não adianta.
Chove é do lado de dentro.

Thursday, May 09, 2013

Fim


Selaram a última caixa.
Trancaram as portas.

E até a lua sumiu do céu.  

Estrelinhas


 "Não importa o que se passe na sua cabeça, você tem que pagar as contas. Assim é a vida."

Não que ela pensasse assim, mas se orgulhava de ter conseguido formular uma frase dessas, tão diferente de si mesma. Era o Retorno de Saturno, era a maturidade, era o aluguel, era o fim de suas baboseiras existencialistas, era a vida adulta, Yes, Yes, Yes.  

"Não importa o que se passe na sua cabeça, você tem que pagar as contas. Assim é a vida."

E, no caso, pagar as contas significava acabar a tradução de um texto em francês sobre um novo tipo comportamento dos mouriscos, talvez devido às recentes alterações climáticas, talvez por uma mutação natural da espécie blábláblá.  

Mas em determinado momento pareceu que fazia o impossível, como se todos os caminhos recentemente escolhidos fossem equivocados. Ela estava indo tão bem e agora isso.
Sem saber por onde seguir ficou cinco horas desenhando estrelinhas nas linhas das mãos. Só para ver o se o tempo passava e esquecia dela. Mas ele não esquece. Quase de manhã, resolveu que precisava voltar aos mouriscos.

Antes lavou as mãos. Passou sabonete, mas as estrelinhas continuavam lá. Passou álcool, passou baba, passou acetona. Uma mão de estrelinhas. Estava bonito, bonito mesmo. E amanhã quando tivesse que entregar a tradução ao seu chefe, diria: não pude, olha só. E mostraria as mãos machadas. Ninguém consegue pensar com as mãos assim. Parecia compreensível. Foi dormir. Não sem antes desenhar uma estrelinha, a última do dia. 

Cabra-cega



Risca o poema
Que dá a resposta
Que a alma
(cega)
cala
          e vê