Depois da noite
Num desses botecos cheios de garrafas coloridas e cheiros e pessoas e barulhos e cores e frituras e cervejas e que são até mais bonitos que muita exposição de arte. Os dois estão sentados lado a lado. Ela segura com força a barra esquerda da saia, só porque precisa ter uma coisa aonde se agarrar, pois estar com ele é sempre cair em precípios. Ele fuma um cigarro de palha, com calma e leveza. Ele não cai mais em precípios.
Ela: Eu queria que você me amasse daquela forma antiga.
Ele: Querida, não dá.
Ela: Mas era tudo tão mais bonito...
Ele: Sabe o que é? Eu só fui capaz de amar daquela maneira porque acreditava no mundo. Eu era um tolo, sabe? Mas o lado bom é que era capaz de acreditar que um amor como o nosso pudesse existir e me entreguei a você como nunca mais vou poder fazer com ninguém. Foi lindo. Mas na vida de hoje não dá pra querer que eu sinta a mesma coisa porque eu não acredito em mais nada, hoje eu vi como as coisas são e não estou me referindo a você, apenas. Hoje eu sei que o mundo é mau e isso não é só uma frase clichê, é uma frase cruel que acorda todos os dias na minha boca para que eu sofra um pouco menos com tudo lá fora. E alguém que já entendeu como a vida é, está impedido de amar pra sempre.
Ela: Então eu não quero entender nunca.
