Sonhos dourados
Era Domingo e chovia. Não havia nada que justificasse deixar aquela cama tão quente. Ao mesmo tempo mal conseguia controlar a ansiedade provocada pela certeza de que não podia perder tempo. Por mais que quisesse apenas continuar em casa estava certa de que se o fizesse, nos primeiros acordes do jingle do Fantástico seria devorada por um terrível mal-estar e a certeza de ter desperdiçado um dia de vida. Era Domingo. Ela tinha que ir ao cinema, ao teatro, visitar a mãe, ou quem sabe almoçar fora. Não importa. Não precisava sequer se divertir, era necessário apenas aproveitar o dia de folga, dormir com a certeza de dever cumprido e acordar renovada para enfrentar mais uma cansativa semana de trabalho.
Mas a cama continuava tão quente... Passou a enumerar questões que pudesse resolver ainda debaixo dos lençóis. Organizou mentalmente a lista de mercado, planejou o próximo dia de trabalho, tentou lembrar o nome do supervisor do setor B com quem almoçaria na quarta-feira... Quando não havia mais nada que justificasse sua permanência naquela cama, teve a ideia: podia sonhar com a Mega Sena! Uma ocupação maravilhosa e à qual não se dedicava há tanto tempo... Não era uma programação que merecesse ser anotada na agenda, mas ainda assim tinha seu encanto. Além do mais, quando olhasse novamente para o relógio ficaria contente vendo o quanto do Domingo já havia conseguido gastar.
Então, Mega Sena... Será que deveria arriscar um sonho alto? Daqueles em que se ganha logo 18 milhões? Uau! Não, talvez devesse ser um pouco mais comedida e ficar com razoáveis 2 milhões. Era este o prêmio de semana passada. Ela sempre acompanhava os valores, ainda que nunca jogasse. Não suportava o rosto esperançoso de todo o tipo de gente com que tinha de conviver durante os intermináveis minutos da fila, segurando seus pequenos papéis com certo descaso, tentando disfarçar a fé cega de que em breve tudo em suas vidas seria diferente. Mas ela não precisava pensar neles agora, já tinha ganho seus dois milhões. Se bem que era Domingo, chovia... Ela podia se dar ao luxo de sonhar algo grandioso: ganhou vinte milhões na Mega Sena!!! Isso! Yes! E agora?
Primeiramente pediria demissão daquele emprego estúpido no escritório e falaria o que sempre pensou de todas aquelas pessoas igualmente estúpidas e que passariam o resto das suas vidas estupidamente preenchendo papéis, carimbando documentos e recalculando planilhas. Logo em seguida compraria os classificados e procuraria um lindo apartamento na praia do Leblon. A lembrança da vertiginosa inflação no preço dos apartamentos cariocas conduziu-a a um pequeno ajuste no sonho: na verdade, ganhou 200 milhões na Mega Sena. Agora sim, podia comprar o apartamento que quisesse. Fecharia todos os detalhes da compra em seu I-phone de última geração e enquanto esperasse a reforma ficar pronta iria ao shopping comprar aquela sandália dourada maravilhosa cuja imagem a havia atormentando durante as últimas noites. Ela era tão incrivelmente bonita e tão absurdamente cara... Aproveitaria para levar também um vestido de seda vermelho, que combinava muitíssimo com a sandália. Ah! E uma bolsa, afinal ela tinha 200 milhões, ora essa! Depois jantaria em um restaurante de comida japonesa muito, muito, muito caro. Contrataria uma massagista. Um motorista. Um marido. Compraria caixas e caixas de chocolate da Copenhagen e garrafas de Moet Chandon.
E o que mais? Ainda deveria ter uns 175 milhões para gastar, no mínimo. Mas não conseguia imaginar nada além. Começou a balançar as pernas com força, movimento que desde criança a acompanhava nos momentos de tensão. O que mais fazer? O que mais? As pernas mexiam-se cada vez mais rápido. Ela sabia que a qualquer momento podia interromper o jogo que havia criado, mas apesar do desconforto, insistia. É que lembrava que antigamente sonhar com a Mega Sena era um programa realmente fantástico. Ela inventava cada coisa estupenda para fazer com todo aquele dinheiro. Viajaria pelo mundo inteiro, conheceria aborígenes australianos e... e... e... Não sabia mais. Torceu os dedos enquanto tentava se imaginar deslumbrada com seus próprios planos mirabolantes. Mas não conseguia inventá-los. Deu-se conta então de que os seus sonhos tinham se apequenado, eles tinham o tamanho da sua vida. Ou talvez fosse ainda pior, talvez ela não soubesse mais como se faz para sonhar.
Ainda que tal constatação a enchesse de tristeza, pode enxergar que podia mudar. Era isso! Aquele acontecimento estava ali pra alertá-la. Talvez em pouquísimo tempo ela sequer fosse capaz de enxergar o que se tornara. Mas agora não. Ainda havia tempo O mundo estava lhe dando uma chance. Ela precisava fazer alguma coisa naquele momento, bruscamente, sem pensar. Algo que a retirasse daquele vazio que havia se tornado a sua vida. Algo transformador. Saiu de casa atordoada e feliz por ter tanta coragem, ela já nem se lembrava que podia ser assim. Correu pelas ruas vazias de Domingo como se o seu fôlego não fosse acabar jamais. Atravessou bruscamente as portas daquele lugar que a colocariam num mundo novo: a loja de sapatos. Sem pestanejar, comprou a sandália dourada. Em 10 x sem juros.

2 Comments:
:)) Gostei mt! Perfeitamente detalhado..
Muitos domingos por vezes é assim mesmo..rs
Maravilha. Vai ser a minha leitura constante. Leitura e releitura. Você é uma pessoa abençoada. Beijos.
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