Pés descalços
e olhou pra trás. Mas era tarde demais e ela sabia disso. Só podia enxergar a noite fria que atravessava a imensa avenida vazia de pessoas e barulhos. O alívio tomou conta de seu corpo com tanta força que ela se agachou lentamente. Tirou os sapatos de salto fino, agora ela era livre. E caminhou.
Caminhou em direção ao novo rumo que escolhera trilhar. Longe de João, de seu turbilhão de confusões e dúvidas que acabavam sempre a envolvendo por mais que buscasse evitá- lo. Depois de alguns metros, uma sensação estranha a fez parar. Lentamente. O que antes era alívio virou desespero. O futuro que há poucos instantes parecia belo e calmo se transformou em nada. Não podia haver futuro sem João. Chorou diante da repetida constatação de que simplesmente não sabia ser sem ele. Por mais que lhe doesse, por mais que ele a fizesse sofrer não conseguia vislumbrar vida possível longe de seus abraços, da barba por fazer, das crises de depressão, da guitarra sempre encostada à beira da cama.
Teve raiva daquela manhã quando acordou com força suficiente para terminar tudo. Já tivera essa vontade diversas vezes, sempre misturada com um gosto amargo de decepção que escorria por sua boca. O curioso é que daquela vez a vontade permanecera ao longo do dia, não se dissolvera diante do primeiro olhar zombateiro com que João olhava o mundo. Teve certeza então de que aquele era o dia do fim.
Mas não. Não podia haver futuro sem João. Correu. Será que ele ainda estaria em algum lugar? Se jogaria em seus braços, soluçando pediria perdão por todas as palavras duras que usara, estava confusa, é verdade mas não existia mentira maior do que a negação do amor que sentia. Não podia haver futuro sem João.
Um caco de vidro no meio da rua. Os pés descalços. O sangue jorrou, mas era como se aquele pé cortado profundamente não fosse dela, continuava correndo, sabia do único lugar onde ele poderia estar. O mesmo bar e os mesmo amigos de sempre. Chegou.
Ele. Sentado, rindo, jogando cartas. A expressão de ironia era igual à de todas as madrugadas quando ela o vinha buscar. “Amanhã, você tem que dar aquela aula logo de manhã, amor.”
- Oi baby. Ele disse, como diria em qualquer outro dia, mas seria possível que... Será que ela não tinha terminado tudo? Será que apenas sonhara ter sido forte o suficiente e depois vergonhosamente fraca, como sempre acabava sendo?
- Eu sabia que você ia ver que isso tudo era uma besteira, baby. Jogou sobre a mesa encardida do bar uma dama vermelha.
Mas não. Não podia haver futuro sem João. Correu. Será que ele ainda estaria em algum lugar? Se jogaria em seus braços, soluçando pediria perdão por todas as palavras duras que usara, estava confusa, é verdade mas não existia mentira maior do que a negação do amor que sentia. Não podia haver futuro sem João.
Um caco de vidro no meio da rua. Os pés descalços. O sangue jorrou, mas era como se aquele pé cortado profundamente não fosse dela, continuava correndo, sabia do único lugar onde ele poderia estar. O mesmo bar e os mesmo amigos de sempre. Chegou.
Ele. Sentado, rindo, jogando cartas. A expressão de ironia era igual à de todas as madrugadas quando ela o vinha buscar. “Amanhã, você tem que dar aquela aula logo de manhã, amor.”
- Oi baby. Ele disse, como diria em qualquer outro dia, mas seria possível que... Será que ela não tinha terminado tudo? Será que apenas sonhara ter sido forte o suficiente e depois vergonhosamente fraca, como sempre acabava sendo?
- Eu sabia que você ia ver que isso tudo era uma besteira, baby. Jogou sobre a mesa encardida do bar uma dama vermelha.
- Ganhei! Ela olhou para a pequena poça que se formara em torno do seu pé. Nem se lembrara de arrancar o pedaço de vidro. A dor em seu coração era tão maior... Levantou o pé e puxou com força o enorme caco. Tudo bem, as lágrimas já há muito tomavam seu rosto. Se dirigiu a João e o abraçou. Seria sempre fraca. Beijou- lhe o pescoço e depois o cortou com o caco de vidro, mistura de lama e sangue da rua imunda. Um corte rápido, seco e definitivo. Os mesmos gestos, agora nos próprios pulsos. Não podia haver futuro sem João.

9 Comments:
Ana, já virei freqüentador assíduo do seu blog. "Mas não é que essa tal de Internet presta pra alguma coisa...". Fico muito feliz quando entro aqui e vejo um texto novo. Ainda mais quando eu sou o primeiro a fazer um comentário sobre o texto.
Só pra deixar registrado, esse texto foi PERFEITO. Tô começando a ficar preocupado com essa sua melancolia, mas acho q é um ótimo realce pro texto ficar mais interessante.
Beijos.. e A CHOPPADA TÁ CHEGANDO aí, hein?!
Nossa, entrei aqi hj pela primeira vez. Seus textos são muito bons! Esse último é um baque.
Nossa, que cruel, amiga. É engraçado como nossos textos dizem muito do momento que estamos passando. Não que vc esteja se tornando uma assassina, longe disso!! rs...
Mto bom. Fluente e devorado de uma só vez. Beijos
Grande Ana !!!
Muito bom !!!, fiquei com medo de vc ...,
brincadeira, só pq eu tb me chamo João .
mêdaaaaaaaaaaaaaa!
rsrsrsrs
brincadeira ana....FANTÁSTICO!
Mas qqur coisa liga tá?rsrss
bjss.
Anaaaaa, vc tb entrou nessa onda de blog hein....hehe. Lindo amiga, muito lindo....amo saber que tenho amigos tão talentosos....adorei te ler...
Bjos
Ana, comment de aniversário!!! Leio todos os seus textos, gosto de todos, gosto da sutileza, da crueldade, da melancolia... Tb me inspiro mais fácil a sofrer!!! Q meleca, né? E agora por falta de sofrimento, êba, tenho escrito os textos em terceira pessoa. Fica mais impossoal, mais livre. Vc já faz isso e bem!!! Tenho preguiça de comentar as vezes, mas me redimo com este que está grande enough. Páro aqui! Bjossss
impessoal, digo...
Não é a primeira vez que venho aqui, mas dessa vez eu passei pra dizer que gosto muito da tua lírica.
Percebi também que conhecemos pessoas em comum: Danilo e Camila.
Te quero ler com mais freqüência, mas respeito o tempo de maturação necessária a um bom texto.
Parabéns!
Daiana
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