Friday, November 24, 2006

Karma

Assistia sessão da tarde e comia pipoca sozinha no quarto pensando que fizera muito bem em não ir trabalhar naquele dia quando de repente ouviu um estranho barulho vindo da sala. Desligou a TV e conteve a respiração para escutar com o máximo de atenção o que se passava, ouvindo assim o som de chaves tentando forçar a porta da entrada. Pronto, era o vizinho-estuprador-do-105 invadindo seu apartamento, tinha certeza. Olhou para os lados buscando algum objeto com o qual pudesse se defender e o que encontrou de mais ameaçador foi um estilete enferrujado. Mas ao invés de pegá-lo preferiu esperar passiva o momento da curra e posterior morte. Após alguns segundos os barulhos cessaram. Silêncio absoluto. O vizinho devia estar se aproximando lentamente do quarto. Conteve mais uma vez a respiração e depois que já tinha passado dez vezes o filme de sua vida na cabeça se deu conta de que, mais uma vez, nada iria acontecer. Ou talvez ele tivesse se escondido na cozinha enquanto esperava ela estar tomando banho para a atacar (tinha bem cara de estuprador de chuveiro, o vizinho). Ou talvez fosse apenas mais um barulho corriiqueiro no apartamento ao lado.
Não sabia precisar porquê, mas desde pequena ela tinha certeza de que um dia seria violentada. Quando andava sozinha na rua depois do anoitecer era só vir um homem em sua direção para que pensasse: “Pronto, chegou a hora. Tomara que pelo menos ele seja do tipo que usa camisinha”. Mas eles sempre passavam direto, provocando um suspiro aliviado e rezas de agradecimento que duravam uma semana. Depois de ir numa cigana para tentar descobrir a origem de seus traumas soube que em uma vida passada fora estuprada várias vezes, o que lhe provocou o atual pavor.
Além do constante medo do estupro outra mania que tinha era de sempre achar que encontraria o corpo de uma pessoa morta em absolutamente todos os lugares aonde chegava. Abria a porta da casa dos pais jurando que os dois estariam petrificados no sofá. Chamava o elevador do trabalho de manhã já preparada para encontrar o ascensorista assassinado com um tiro no peito. Até ao abrir a despensa de sua própria casa tinha medo de encontrar um desconhecido junto a uma poça de sangue. Ficava pensando que isso de na outra vida ter sido estuprada por muitos homens e ter encontrado um monte de corpos de pessoas mortas não deve ter sido nada fácill. Ainda bem que não lembrava.

3 Comments:

At 9:15 AM, Blogger Ailton Jr said...

huAhuaahuhuahuaahuA

"good"

veri gud

 
At 2:00 PM, Anonymous Anonymous said...

tá acida, hein amiga!
mas achei mt legal.
beijos

 
At 11:42 AM, Blogger João said...

Poizé, muito filme noir dá nisso.

 

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