Olhar urbano parte 1- o metrô
Quando era criança adorava andar de metrô com a minha avó nos finais de semana. Passava o tempo inteiro rodopiando pendurada nos postes de alumínio, para total desespero dela e minha felicidade completa.
Depois cresci e assim como acontece com todo o resto na vida, passei a olhar de um modo bem diferente este lugar. Hoje em dia chego a ter claustrofobia lá dentro, é tudo tão civilizado que assusta. Existe uma organização a que todos, inclusive eu, obedecem de maneira tão ordenada que não pode ser normal. Vários são os elementos que aumentam o meu terror a cada vez que sou obrigada a utilizar o “método de transporte urbano mais seguro e eficiente da cidade”. Começando pelo fato de que se eu pisar por mais de um segundo na faixa amarela já escutarei que ela é a garantia da minha segurança, eu saio da faixa amarela e lá vem a pergunta de todos os dias: “você já ajudou um idoso hoje?”. Tenho pesadelos com os desenhos horrorosos que cobrem as paredes das estações e vagões. Há sempre alguém de cabelo grisalho sorridente por estar sendo carregado por outro alguém ainda mais sorridente. Nos piores casos completa o quadro da civilidade e educação do povo carioca o desenho de um negro (sorridente, é claro). Se você comete a infelicidade de sentar numa cadeira laranja vem aquela voz em off dizendo que o lugar é preferencial para idosos, gestantes e blábláblá e mesmo que não haja nenhum idoso, nem gestante, nem blábáblá você se sente culpado e a voz continua repetindo “idosos, gestantes, blablabla” intercalada apenas por outra voz ainda mais simpática que pergunta de novo se eu já ajudei um idoso hoje. Como se ajudar um idoso fosse uma obrigação diária, acorde, escove os dentes, ajude um idoso e siga em frente. A lavagem cerebral é tamanha que eu sempre me sinto culpada quando passo por um velho e não estendo a mão, mesmo que ele não precise.
Quando eu achava que as coisas não podiam ser mais absurdas promulgam a Lei Picciani. A primeira vez que vi um vagão todo pintado de rosa cai na gargalhada e achei absolutamente inacreditável. Mas depois percebi que a coisa era bastante real e o pior, tinha muita gente satisfeitíssima com a invenção. Ontem decidi fazer meu habitual percurso Botafogo/ Saens Pena num desses vagões. Fiquei assustadíssima. Ali dentro todas as mulheres parecem exprimir uma felicidade de vencedoras, de quem finalmente ocupou o seu lugar na sociedade e pode colocar a bunda e o peito onde quiser que não vai ter nenhum tarado para querer bulinar. No momento em que eu estava quase me direcionando ao vagão das pessoas normais por não mais agüentar o cheiro de perfume feminino de todos os tipos de conversa sobre sexo, depilação e menstruação tive uma idéia brilhante: vou apertar a bunda de uma delas, uma bem gorda que tenha cara de que se benze só de ouvir falar em sexo, só pra ver o desconcerto delas ao descobrir que também podem existir mulheres taradas. No entanto, um episódio daquele tipo que só vale existir para depois poder ser escrito me impediu. Um homem de uns trinta e poucos anos entrou sozinho no vagão rosa seguido por um incômodo geral e comentários tímidos, pequenas indiretas do tipo “será que alguém não notou que esse vagão é especial?”, “tem gente que não tem educação mesmo”, “Não, não! Tem gente que não respeita a lei!”. Ele riu com os olhos um riso irônico de quem sabe para quem todas as palavras rudes eram dirigidas e não moveu um músculo sequer. Adorei. Sem que eu pudesse perceber bem como o que eram simples comentários se transformou em berros e xingamentos: “viado!”, “safado.” “enrustido!”, “tarado!”, “não tem vergonha na cara, não ô maníaco!”. Entre a Praça Onze e a Central tive a impressão de que se o metrô tivesse janelas o homem seria atirado por uma delas. Na estação seguinte ele saiu, abatido e envergonhado. Todas as mulheres bateram palmas, orgulhosas por mais esta batalha vencida. Eu tive medo. E decidi que nunca mais entro num desses vagões, a não ser que tenha oportunidade de apertar a bunda de uma delas, igualzinho a um desses tarados.
Depois cresci e assim como acontece com todo o resto na vida, passei a olhar de um modo bem diferente este lugar. Hoje em dia chego a ter claustrofobia lá dentro, é tudo tão civilizado que assusta. Existe uma organização a que todos, inclusive eu, obedecem de maneira tão ordenada que não pode ser normal. Vários são os elementos que aumentam o meu terror a cada vez que sou obrigada a utilizar o “método de transporte urbano mais seguro e eficiente da cidade”. Começando pelo fato de que se eu pisar por mais de um segundo na faixa amarela já escutarei que ela é a garantia da minha segurança, eu saio da faixa amarela e lá vem a pergunta de todos os dias: “você já ajudou um idoso hoje?”. Tenho pesadelos com os desenhos horrorosos que cobrem as paredes das estações e vagões. Há sempre alguém de cabelo grisalho sorridente por estar sendo carregado por outro alguém ainda mais sorridente. Nos piores casos completa o quadro da civilidade e educação do povo carioca o desenho de um negro (sorridente, é claro). Se você comete a infelicidade de sentar numa cadeira laranja vem aquela voz em off dizendo que o lugar é preferencial para idosos, gestantes e blábláblá e mesmo que não haja nenhum idoso, nem gestante, nem blábáblá você se sente culpado e a voz continua repetindo “idosos, gestantes, blablabla” intercalada apenas por outra voz ainda mais simpática que pergunta de novo se eu já ajudei um idoso hoje. Como se ajudar um idoso fosse uma obrigação diária, acorde, escove os dentes, ajude um idoso e siga em frente. A lavagem cerebral é tamanha que eu sempre me sinto culpada quando passo por um velho e não estendo a mão, mesmo que ele não precise.
Quando eu achava que as coisas não podiam ser mais absurdas promulgam a Lei Picciani. A primeira vez que vi um vagão todo pintado de rosa cai na gargalhada e achei absolutamente inacreditável. Mas depois percebi que a coisa era bastante real e o pior, tinha muita gente satisfeitíssima com a invenção. Ontem decidi fazer meu habitual percurso Botafogo/ Saens Pena num desses vagões. Fiquei assustadíssima. Ali dentro todas as mulheres parecem exprimir uma felicidade de vencedoras, de quem finalmente ocupou o seu lugar na sociedade e pode colocar a bunda e o peito onde quiser que não vai ter nenhum tarado para querer bulinar. No momento em que eu estava quase me direcionando ao vagão das pessoas normais por não mais agüentar o cheiro de perfume feminino de todos os tipos de conversa sobre sexo, depilação e menstruação tive uma idéia brilhante: vou apertar a bunda de uma delas, uma bem gorda que tenha cara de que se benze só de ouvir falar em sexo, só pra ver o desconcerto delas ao descobrir que também podem existir mulheres taradas. No entanto, um episódio daquele tipo que só vale existir para depois poder ser escrito me impediu. Um homem de uns trinta e poucos anos entrou sozinho no vagão rosa seguido por um incômodo geral e comentários tímidos, pequenas indiretas do tipo “será que alguém não notou que esse vagão é especial?”, “tem gente que não tem educação mesmo”, “Não, não! Tem gente que não respeita a lei!”. Ele riu com os olhos um riso irônico de quem sabe para quem todas as palavras rudes eram dirigidas e não moveu um músculo sequer. Adorei. Sem que eu pudesse perceber bem como o que eram simples comentários se transformou em berros e xingamentos: “viado!”, “safado.” “enrustido!”, “tarado!”, “não tem vergonha na cara, não ô maníaco!”. Entre a Praça Onze e a Central tive a impressão de que se o metrô tivesse janelas o homem seria atirado por uma delas. Na estação seguinte ele saiu, abatido e envergonhado. Todas as mulheres bateram palmas, orgulhosas por mais esta batalha vencida. Eu tive medo. E decidi que nunca mais entro num desses vagões, a não ser que tenha oportunidade de apertar a bunda de uma delas, igualzinho a um desses tarados.

7 Comments:
Muito bom! Você devia desenvolver mais esse lado de cronista da cidade.
Estava eu, vagando pela net e acabei por achar o seu blog!
Nossa! Gostei muito dos seus posts, apesar de não ter lido todos, mas acredito
que sejam tão bons quantos esses atuais!
Espero poder continuar prestigiando esse espaço e também que mantenhamos contato
para sempre ler seus textos super interessantes!
Um grande beijo pra vc!
Muito sucesso e parabéns!
APERTA A BUNDA DA GORDA! APERTA!
SÃO DE ATITUDES COMO ESSA QUE O MUNDO PRECISA!!!!APERTA!!!APERTA!!!!!
isso aí, aperta a bunda de alguém. Por favor.
Apóio as mulheres taradas dos vagões rosa!!!
Muito bom, Ana!
Só cuidado pois a gordinha pode gamar hein...
Que tal apertar a bunda de quem teve essa invenção ridicula de vagão?
Acho que só as lésbicas, as recatadas, as freiras e as feministas de boteco apoiaram né??
Mas quem bom que ainda exitem mulheres como vc com um pingo de bom senso e enxegar o absurdo que é essa "maravilhosa conquista" da mulher brasileira!
Bjs
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