Sonhos de sábado
-Te amo.
Esperara tanto por aquele momento que quando ele se concretizava parecia ruim. Era ruim. Porque nada podia ser tão bonito e verdadeiro como quando era apenas ela quem vivia. Aquele homem à sua frente, camisa listrada e tênis sem cadarço parecia um pouco patético na sua declaração. Um pouco bêbado também. Mas já eram quase seis da manhã e certamente não havia mais ninguém naquela festa que não estivesse assim. Olhou em volta. O sol nascendo. Alguém jogado no sofá. Latas de cerveja vazias pelo chão imundo. Procurava nos outros algo que a tirasse de si. E dele.
- Te amo. Vamos ao cinema?
Ela riu. E percebeu que aquelas palavras só eram ditas porque já eram seis da manhã, porque estavam todos bêbados, porque o sol nascia, porque era quase Natal e nessa época todo mundo ama um pouco mais. Mas sabendo que elas exprimiam um sentimento que só teria validade até o final daquela festa ficou feliz. Depois de dois anos escutara a mentira com a qual sempre sonhara.
- Então, vamos ao cinema?
Não havia reação possível. Palavra a ser dita. Nada. Sempre pensara naquele momento, mas nele apenas e nunca no depois. Mas o depois já estava ali e ela precisava fazer alguma coisa. Alguma coisa. Alguma coisa. Alguma coisa. Alguma coisa. Disse:
-Qual seria a pior coisa que eu poderia fazer agora?
Vomitou na árvore ao lado. Não existia nada mais verdadeiro e cru do que um vômito pra acabar com um sonho de sábado à noite.

4 Comments:
hahahhaa. que bom que vc voltou! Ler sobre o que eu sei é mto divertido. Não pára não, amiga. Estamos de férias, o que não falta é tempo ( e assunto). bjo
Nunca posto aqui, mas sempre leio. Sou amiga do João e descobri seu blog por acaso. Só vim dizer pra não parar de novo. Adoro o que você escreve
De volta e em grande estilo. Sabe que eu gosto, né? Senão não cobraria tanto... beijotas
Bom, muito bom.
Post a Comment
<< Home