Dança de letras
Era um sábado como outro qualquer e Maria saiu de casa pensando como pensava sempre que talvez esta fosse a noite em que encontraria o seugrandeamor. Músicas de Carnaval (apesar de estarem em Outubro) e um monte de gente que dançava sem parar mas ela nunca conseguiu aprender a sambar então simplesmente se movimentava se esforçando para seguir o ritmo, ou a pessoa que dançava ao sue lado. No meio de uma música que todos sabiam de cor a multidão que obrigava a gritos e pulos incansáveis de felicidade a empurrara até os braços de alguém. Os corpos se tocavam sem querer misturando suores e risos de quem não sabe como disfarçar que algo aconteceu. Ficaram assim durante algum tempo e Maria já não sabia mais se olhava o show, as pessoas ou pra ele. Sem que nenhum dos dois possa explicar como no meio de uma nova explosão de felicidade da platéia se beijaram. Se beijaram. Se beijaram. Se beijaram. Se beijaram. Se beijaram. Se beijaram. Se beijaram. Gustavo. Maria. Foram as únicas palavras que disseram nauqela noite. O show acabou e as pessoas indo embora lentamente sinalizavam que também deveriam partir. Ficaram. Até que não restava mais ninguém na pista de dança então ela leu em seus olhos o que diria em seguida e sem lhe dar tempo de justificar a partida pegou a sua mão e anotou com um lápis verde o número do seu telefone. Pensou que essa não era a melhor maneira pois quem sabe se antes mesmo de chegar em casa o número já tivesse se apagado. Mas era exatamente por isso que o fizera. Se acaso nunca mais se vissem ela sempre poderia pensar que o seu número sumira da mão dele e que ele também sofreu muito com isso. Depois ficou pensando e achou engraçado que além dos números escrevera seu nome, com letras redondas e imensas. Como quem quer realmente deixar marcado no outro um pouco de si.
Passaram duas semanas.
- Maria?
Se encontraram no apartamento dele e era assim desde então. Sabiam muito pouco um do outro e ocupavam as horas em que não faziam amor discutindo literatura. Milan Kundera, Gabriel Garcia Marquez, Albert Camus ocupavam o lugar da família, compromissos e vida lá fora. Nunca nenhum dos dois fez qualquer esforço para saber um pouco mais do outro. Talvez temessem que a relação de cumplicidade surgida a partir do conhecimento mútuo pudesse gerar um tipo de afeto absolutamente nocivo àquela relação. Não havia amizade e, portanto, nenhum amor maternal ou sentimento de culpa. Eram felizes.
Um dia Maria inventou o jogo. Chegou mais cedo do que ele ao apartamento e o recebeu nua, vestindo apenas um chapéu de coco.
- Sabina.
O entendimento foi imediato e a partir de então se amavam como se fossem alguns dos personagens preferidos de seus romances. Surgiram encontros inusitados, como o de Aureliano Buendia e Capitu, Leonardo e Macabéa e outros tantos que só podiam acontecer entre duas pessoas que amavam tanto algo em comum.
Mas um dia não foi mais suficiente. Maria disse te amo e ele soube que não era nenhuma das outras quem falava. Abraçou- a, tomado por um medo enorme de perdê-la e soube que talvez aquilo também significasse amor. Mas sabia igualmente da sua total incapacidade de viver com esse sentimento.
Naquela noite não pode dormir. No dia seguinte acordou bem cedo, arrumou suas coisas e deixou o apartamento. Havia lembranças demais de Maria por ali. Uma carta sobre o móvel contendo apenas "cuide de minhas flores. um beijo" foi deixada. Sabia que não eram necessárias palavras para que ela entendesse o que tinha acontecido, mas de alguma maneira precisara se despedir. Nunca mais se viram. Não importava. Bastava ler algum dos seus livros prediletos e Maria estava ali.

1 Comments:
Que surpresa boa, mi...
Simplesmente amei. (pq vc SEMPRE faz isso?!!)
te amo!!!
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