A grande importância dos pequenos detalhes
Quando eu era criança sabia muito bem que se por acaso encontrasse um gênio da lâmpada, fada madrinha, ou qualquer outro que pudesse me dar a coleção completa da Barbie e um país no Polo Norte, tinha que especificar meu desejo bem direitinho, pra ele não ser mal-interpretado. Exemplo típico: você pede uma casa com piscina e ganha uma casa com piscina de massa de modelar, de dois dedos de altura. Culpa sua que não soube desejar direito. Tinha muito medo que isso acontecesse comigo e passava horas a fio imaginando cada detalhe do meu maiorsonho. Tinha várias opções de maiorsonho também, caso algum deles se apresentasse impossível.
Só que depois a gente cresce e esquece as coisasmaisimportantesdavidaqueaprendeuquandoeracriança.
Cresci. E te amei desde o primeiro momento em que ouvi sua voz. Eu tava lendo a crítica da Barbara Heliodora sobre o espetáculo que ìamos assistir, ouvi você falando qualquer coisa sobre figurinos, ensaios e mofo e tive certeza: a voz do homem da minha vida. A gente ainda sentou lado a lado, depois tem gente que não acredita em destino.
Desejei então poder ficar com você pra sempre, fiz promessa e tudo. Casamos, ritual budista na praia de ipanema, lindo. Fiquei tranquila e achei que a eternidade do nosso amor estava garantida, apesar das constantes brigas, a maioria por falta de grana- quantas vezes minha mãe disse que se eu ia mesmo fazer teatro o mínimo era que nunca casasse com um ator.
Até que veio o comercial de pasta de dente. Parabéns, falou o diretor, vocês funcionam muito bem juntos, tem química. Claro, somos casados seu idiota, pensei. Muito obrigada, senhor, disse. Sempre tive raiva diretor de comercial.
Um cachê enorme, daqueles que a gente acha que não vai ganhar nunca e tudo isso pra ficar sorrindo pelo resto da vida nas caixas de close up fresh mint. Mandei fazer um quadro e pendurei na sala, você jogou fora. Achou brega. Tudo bem, nosso amor era bem maior e ainda por cima eterno.
Mas você morreu. De uma hora pra outra, no dia do meu aniversário. Sempre tive pavor das grandes datas porque as piores coisas sempre me acontecem nesses momentos. Primeiro o Tó, meu cachoro vira-lata que morreu depois de ter comido uma lata inteira de Baygon na noite de Natal, eu tinha dez anos. Depois o acidente do meu pai no Reveillon. Agora você morre atropelado em frente ao nosso prédio, de onde saiu correndo feito um louco depois de eu dizer que não queria nunca mais te ver na vida. Você ainda tava segurando o buquê de lírios, meu presente de aniverário. E morreu. Você e os lírios amarelos cheios de sangue no meio da Voluntários da Pátria e eu em casa te xingando pelo atraso no jantar, mas será que não dava pra sair mais cedo do ensaio nem no meu aniversário?
Depressão, prozac, análise três vezes por semana. Mas acho mesmo que nunca vou sair dessa. A culpa foi minha que não soube te desejar direito. A pasta de dente com a nossa foto, juntos pra sempre, continua à venda em todas as farmácias e drogarias.

5 Comments:
Noossa, seus textos sempre me dão pancadas no final. Gosto muito de tudo, da narrativa,das referências, das relações, das quebras de expectativa. Esse era um dos elogiados pelas amigas da sua mãe? Adorei!!!
Adorei, mas ainda estou meio chocada! Beijos
Nossa, que pesado Ana.
Meus Deus, temos que parar com isso! hehehe
Mas adorei, mesmo. Vai entrar pra minha lista de preferidos do seu blog. beijos
Sempre criando histórias, a gente não vive sem isso. Precisamos olhar durante horas no espelho, dizer umas coisas bem canastras e depois verter em lágrimas, e não é disso que a gente vive?
Os seus textos me intrigam...
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