Friday, March 31, 2006

Um dia qualquer

Morava sozinha no apartamento herdado dos pais desde que seu irmão fora viver na Europa. Ela não sabia mais em que país, pois depois da terceira mudança e da vigésima carta sem resposta ele nunca mais escrevera. Dez anos sem nehuma notícia, mas de alguma maneira ele continuava presente. Costumava sentir terríveis dores de cabeça sempre que se lembrava da sua voz alta, do seu gosto musical sofrível, da sua ignorância e falta de educação. Provavelmente estava muito rico, um perfeito modelo de capitalista selvagem. Era bem a sua cara mesmo, desde criança disputando dinheiro e cobrando juros sobre balas e gibis emprestados. Tinha casado, segundo soube através de uma amiga com quem também nunca mais falou. Os dois haviam se encontrarado em Paris há quatro anos. Ele em Paris e ela nunca tinha saído sequer do Rio de Janeiro. Porque nunca teve vontade, naturalmente. Detestava avião, tinha crises terríveis de alergia sempre que o tempo mudava, imagine em Paris, além do mais não suportava frio. É certo que às vezes o pequeno apartamento na Tijuca era excessivamente quente, especialmente nos meses abafados do verão, quando a sala sem janelas se tornava uma sauna escura e vaporosa. Não era sequer possível construir uma varanda pois a obra exigiria a conivência dos vizinhos que certamente não aceitariam, simplesmente porque adoravam irritá- la, o menino do andar de cima, por exemplo, adivinhava seus momentos de leitura para jogar futebol em cima do seu quarto. Detestáveis todos os vizinhos, em especial um casal de mendigos com três filhos pequenos que moravam na calçada da farmácia ao lado. Odiava- os principalmente porque pareciam felizes e aquilo só podia ser mentira. A felicidade é sempre uma mentira, ainda mais para um casal de bêbados que vive às custas de três crianças que ficam fazendo malabarismo no sinal. Ao menos podiam inventar um outro tipo de ocupação, em todas as esquinas da cidade uma criança jogando bolas pro ar enquanto o sinal não abre e os carros continuam seu caminho com o ar refrigerado ligado e as janelas precavidamente fechadas.
Nunca aprendera a dirigir pois morria de medo, sempre se distraíra com muita facilidade, certamente se confundiria no meio dos carros e de todas aquelas pessoas gritando e correndo. Andava sempre de metrô o que era bastante bom, a estação da Saens Pena era bem perto de sua casa e a da Carioca em frente ao trabalho. Secretária num pequeno escritório de advocacia que ninguém sabe como ainda não faliu. E pensar que um dia quis ser atriz. Era formada, inclusive, teatro e dança, mas depois de dez anos de repetidos nãos desistira de tudo. O bom é que agora podia comer chocolate à vontade e não havia ninguém pra lhe dizer que 500 gramas a mais e nem pensar em fazer o próximo teste da Globo. Estava gorda e todos os movimentos do seu corpo eram lentos e pesados, o calor de Dezembro suava suas axilas onde se formavam brotoejas vermelhas nas quais só reparava depois que ardiam, pois há alguns anos perdera o hábito de se olhar no espelho.
Um dia como outro qualquer, saindo do escritório às seis e passando no quiosque onde sempre comprava dois cookies, uma coca-cola e um saco de pão de queijo. De repente uma voz conhecida de muito longe a chama. Ela olha inadvertidamente e reconhece um amor de tempos passados. Alguém com quem, imagine, um dia pensou que poderia casar. Caem cookies, coca-cola, menos pão de queijo, que fica preso na alça da bolsa marrom. Uma cena patética e ela corre porque encontrar com ele seria encontrar um pouco de si, lembrar de tudo que já foi um dia e sentir muita vergonha do que se tornara. Passa empurrando a todos na escada rolante e nem olha pra trás. Ela não pode olhar pra trás. Nunca mais.

2 Comments:

At 7:46 AM, Blogger Camila Nhary said...

nossa. pesado esse.temos mesmo que conversar.

 
At 6:22 PM, Anonymous Anonymous said...

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