Depois de meia-noite
Ando cansada de sair com minhas amigas e seus namorados. Ando cansada de estar só. Hoje, mais uma vez, Baixo Gávea com dois casais. Eu, como sempre, divertindo a todos com minhas histórias- só você mesmo miga - mas ando cansada de ter histórias loucas pra contar. Quero uma história bonita e calma, daquelas bem banais que não interessam a ninguém a não ser a quem as vive.
No final da noite cada um pra sua casa, me despeço com o riso irônico de eu sei bem o que vocês vão fazer agora e adio ao máximo o momento de abrir a porta da minha casa vazia. Passo na locadora pra assistir o filme que a única pessoa que ainda faz meu coração acelerar ultimamente indicou, mas estão todos alugados. Olho para as prateleiras cheias de opções. Nenhuma delas me interessa, só queria mesmo aquele filme de que ele tanto gostou para tentar desvendar o que dele havia ali. Vou embora correndo antes que alguém me ocnvença levar um filme que com certeza não ia assistir. Duas ruas da minha casa. O desespero de saber que mais uma noite vazia me espera. Mas, ufa, ainda tenho que passar na farmácia.
Acho que nunca tinha ido numa farmácia depois da meia- noite e estranho bastante aquele atendente de voz metálica que pergunta o que eu quero protegido por um vidro. Não resisto:
- É a prova de bala?
- Como senhora?
- Esse vidro, é a prova de bola.
- Sim senhora. – Apesar do interfone percebi a tensão na resposta e achei engraçado aquele rapaz com medo de um possível assalto cometido por um moça de olhos verdes e casaco vermelho. Até que seria divertido, talvez virar saqueadora de farmácias 24 hs fosse uma opção interessante para as minhas noites de solidão. Mas como hoje não tenho nenhuma arma que atravesse vidros à prova de bala me limito a perdir minha pílula. Acho que ele riu do pedido, um riso parecido com o meu ao me despedir dos casais e me deu vontade de dizer, meu bem, antes fosse, é só porque eu tenho ovário polissístico mesmo.
Remédio comprado, acabaram as opções... a não ser que eu fosse ao cinema, mas acho difícil achar alguma sessão meia-noite e meia e além do mais não ando com vontade de forjar pra ninguém o telefonema de uma amiga dizendo que por causa do ensaio não vai poder chegar.
O mercado da minha rua ainda está aberto. Será que não falta alguma coisa na geladeira? Tudo, provavelmente, mas eu não sei listar nenhuma parte de. Entro mesmo assim, pensando em levar um chocolate bem grande, a mesma companhia de sempre nesses momentos de solidão. Compro chocolate, cenouras, alface e um quilo de limão, porque amanhã começo minha dieta. Fico imaginando se um dia os mercados vinte quatro horas também atenderão através de um vidro à prova de balas. Rio sozinha. Ultimamente tenho achado tudo muito engraçado, sinal do quanto estou triste.
O rapaz do carro preto que me olhou quando eu entrei não está mais lá fora. Que raiva eu tenho dessa mania de achar que vou encontrar o homem da minha vida em cada esquina... Vou pra casa, bem devagar. Na entrada do prédio encontro com meu vizinho bonito (casado e com duas filhas gêmeas de três anos). Certamente não é o homem da minha vida, mas enquanto isso.. Vamos juntos até o elevador onde todas as minhas coisas caem, o que acontece mais ou menos vinte e cinco vezes por dia. Só nós dois ali meia-noite e meia. Tenho certeza que ele pensa a mesma coisa que eu, outro dia até minha empregada comentou sobre como o vizinho do 903 me olha. Imagino que ele podia parar o elevador e... Mas em seguida lembro das gêmeas, a mulher dele vive vendendo Avon pra minha mãe, ia ser terrível experimentar a nova coleção de batons depois disso. 4 andar. Saio correndo antes que qualquer coisa. Respiro fundo antes de abrir a porta da casa onde não haverá nem flores, nem namorado, nem nada. Entro, sem flores, sem namorado, sem nada, mas com um chocolate. Enorme.

7 Comments:
vc tem razão. identificação total. Hj fui assistir Vinícius, o filme, e alguém citou a frase " escrever é uma forma de não enfrentar os sentimentos". Bem, concordando ou não, fica aí pra gente pensar. hehehe. bjo
Eu acho que o mais bacana do texto é a atmosfera urbana e solitária que vc envoca. Um passeio pela cidade esperando por um acontecimento. Por um clic. Por uma nova história. Enquanto o amor não chega, a mulher escritora vai desabrochando. muitos beijos
Pô, meu comentário vai ser menos filósofo-analítico. simplesmente ótimo o texto. Também fica uma sugestão. Sair para caminhar à noite é uma ótima forma de ver coisas acontecendo, fugir da monotonia. Legal!
Beijos Ana!
Obs. Não procure.. ele vai te achar.
As dietas não levadas a serio são mais prejudiciais que as não dietas, que o brigadeiro feito antes de dormir.
Não existe homem da vida, principe encantado, por favor, tire isso da sua cabeça enquanto é tempo, tire essa ilusão. Se não, todo homem que encontrar vai ter que sofrer a sua expectativa de suprir essa necessidade, vc sofrera a desilusão de descobrir, aos poucos, que não existe principe encantado. Todos podem ser. O amor é construção e, se talvez você não consegue levar a serio suas dietas, talvez não construa concretamente e sinceramente suas relações, é provavel que fique a reboque desses sentimentos, sem domá-los, sendo levada, e não levando a vida. Sendo conduzida, mas não conduzindo.
A literatura pode ser boa, mas ela precisa modificar a vida.
Depois desse texto bateu uma vontade de um chocolate, vai um Alpino aí?!!!heheheh, tô brincando, depois de tanto tempo sem comentar, atendendo a pedidos..taram aqui estou eu novamente e começo logo com o pé, ou melhor, Com o pé e a mão esquerda..Miga, pra variar amei sus textos!!!(li o de cima tb mas esse foi o último por isso a preferência de comentar aqui:)
Quero mais textos pra eu ler, hein? e vê se escreve logo um livro, tá? História e criatvidade é q não falta...
Beijooooooooo
OBS; Pode deixar q não é só o Jonnhy q lê e comenta não, tá?
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