Saturday, April 08, 2006

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6:43. Acordou sobressaltada e voou em direção ao celular, desligando imediatamente o despertador. Faltavam dois minutos para que o barulho infernal que iniciava todos os seus dias começasse e ela conseguira impedi-lo, talvez fosse um bom sinal. Deitou novamente. Trabalhar. Tirar xerox. Ligar dentista. Almoçar sozinha. Ir à Copacabana. Assistir palestra. Devolver livros. Comprar café. Levar avô no médico. Jantar sozinha. Dormir. Dormir. Dormir. O desânimo que aquele dia lhe inspirava já destruía qualquer vontade de começá-lo. Mas era preciso, daqui há pouco o rapaz da mesa ao lado, que também morava no prédio ao lado, buzinaria três vezes e ela desceria correndo pois, apesar de ser muito gentil e sempre lhe dar carona, ele odiava esperar. 6:55. Levantou lentamente e ligou o chuveiro, a água fria talvez lhe desse alguma disposição. Vestido bege e toalha enrolada na cabeça, olhou pela janela: ainda por cima estava sol. Tudo era tão difícil quando fazia sol. As pessoas pareciam mais alegres e vivas o que destacava a sua habitual tristeza e palidez. Além do mais odiava suar, andava sempre com toalhinhas com as quais se secava cuidadosamente. Mas mal acabava de fazê-lo e uma nova gota grande e gorda escorria entre os seios, como para lhe lembrar que continuava viva e que ainda havia muita coisa a fazer, repetidas vezes.
7:10. Café da manhã, um pão velho com e meio copo de leite desnatado. Se pelo menos existisse alguém para quem pudesse ligar. Alguém de quem sentir saudades. Estava sozinha há tanto tempo que já se acostumara a não pensar nisso, mas havia dias de sol em que era impossível. A possibilidade de ter um namorado lhe soava absolutamente patética, não tinha mais nem beleza nem ânimo para isso. Mas às vezes queria apenas alguém com quem sonhar, mesmo de forma platônica. Depois de seu último relacionamento desistira de tentar, amar significa sofrer tanto. Mas ultimamente era incapaz até mesmo de sonhar.
7:21. O rapaz da mesa ao lado que também morava no prédio ao lado devia estar chegando para conduzí-la a mais um dia de trabalho com pessoas de quem ela não gostava, num lugar que ela não gostava para ganhar um dinheiro apertado que mal dava para pagar as contas. De repente percebeu a total falta de sentido que a sua vida adquirira e decidiu tomar uma decisão. Única, irrevogável e cheia de sentido.
7:24. Se dirigiu à estante do quarto e retirou as caixas cheias de antidepressivos de seu falecido pai. Colocou- os sobre a mesa e sentiu seu corpo tomado por uma felicidade imensa que há muito tempo se transformara apenas numa lembrança distante. Foi até a cozinha, segurou com a mão esquerda um copo de água e encheu a mão direita de comprimidos vermelhos e pretos.
7:30. Três vezes a mesma buzina. Esperou. Mais três toques. Largou copos, comprimidos e desceu correndo pois o rapaz da mesa ao lado que também morava no prédio ao lado, apesar de ser muito gentil e sempre lhe dar carona, odiava esperar. Trabalhou. Tirou xerox. Ligou dentista. Almoçou sozinha. Foi à Copacabana. Assistiu palestra. Devolveu livros. Comprou café. Levou avô no médico. Jantou sozinha. Dormiu. Dormiu. Dormiu.

4 Comments:

At 11:48 AM, Anonymous Anonymous said...

Ótimo!

 
At 7:33 AM, Anonymous Anonymous said...

Os textos continuam mt bons, com ressalvas específicas que farei por e-mail. Mas esses ciclos de desilusão e desesperança me preocupam. Conversemos.

 
At 7:32 AM, Blogger Camila Nhary said...

Safada! Quis criar uma expectativa de " vou matar mais uma personagem"! Que bom que vc desistiu do "suicídio" dela. Há sempre uma luz no fim do túnel, certo? O texto é muito bom, gosto muito. E fico pescando o que há de vc nele. Sobre o resto, a gente conversa pessoalmente. Beijo, amiga.

 
At 11:04 AM, Blogger fmaatz said...

Sabe que eu adoro dormir?
Mas pelo menos não gosto de me matar.

 

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