Sunday, June 17, 2007

Pequenas frustrações do cotidiano

Há mais de três horas eu aqui parado e lá embaixo nada. Escolhi um prédio alto demais e também esse horário, cinco da tarde todo mundo quer mais é ir embora. As pessoas apressadas não conseguem sequer enxergar que acima de toda a confusão há um homem querendo se matar. Seguiam então com seus atropelos e pastas lotadas de compromissos inadiáveis.
Alguma coisa teria que fazer, que ele não podia ser assim tão insignificante a ponto de não conseguir reunir sequer espectadores para sua morte, já lhe bastavam os aniversários sempre vazios, precisava pelo menos de público para o fim.
Primeiro pensou em trocar de prédio, escolher um mais baixo para que quando berrasse “vou pular” os transeuntes dissessem “não, não, não!”. Mas seria uma derrota grande demais saber que na vida não tinha sido capaz sequer de escolher o lugar ideal para morrer.

Ligou para a mãe.

- Vou me matar.
- Ok, filho, ok.

É que já dissera isso tantas vezes que ela nem ligava. Mas sempre era mentira. Agora não, ele estava num parapeito tão alto que sequer pombos havia e sua mãe não fora capaz de perceber a diferença do tempo em que anunciava a morte debaixo do cobertor.

Pensou também nos Bombeiros. Poderia fingir trabalhar em algum dos prédios próximos e ter visto um homem de boa aparência em aparente desespero no parapeito do prédio mais alto da rua. Tentou três vezes, mas não conseguiu linha. Não havia quem lhe ajudasse a sair dali. Então pela primeira vez pensou que talvez pudesse realmente se matar. Não subira ali para isso, apenas para que um qualquer berrasse que a vida valia a pena. Mas ninguém notara sua presença porque os relógios andavam cada vez mais depressa e não havia mais tempo para esse tipo de coisa. O mundo não tinha tempo para ele. Bela frase, pensou. Vou escrever num papel e deixar no bolso da minha calça e depois que botem no meu epitáfio. Pegou caneta e papel e depois de ter escrito refletiu se seria necessário indicar qual era o seu objetivo com o recado. Primeiramente achou bobagem, mas ao iamginar como seu túmulo ia ficar bonito colocou a frase entre aspas, seu nome embaixo e do outro lado da folha escreveu: que conste no meu epitáfio, com letras bem grandes e desenhadas. Obrigado. Guardou o papel na carteira, para evitar manchá-lo de sangue.
Prestes a se jogar percebeu o quanto estava sendo corajoso. Agora ele era mais forte do que todos os que continuavam lá embaixo desabrochando aos poucos o nó da gravata numa tentativa frustrada de diminuir a agonia de ter que continuar. Ele não. Ele acabaria com tudo e pronto. Sorriu. Pulou. Sorriu. Morreu. Sorriu.

Assim que o corpo caiu roubaram – lhe a carteira.

2 Comments:

At 8:55 AM, Blogger Unknown said...

vc e os seus finais inesperados!ótimo!

 
At 8:35 PM, Blogger sal said...

fazemos um curta?

 

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