Sunday, February 21, 2010

Na carne

Ele seguia, catando restos de afeto entre serpentinas pisoteadas pelo Carnaval. Tentado fazer com que todos aqueles corpos pudessem ajudar a definir os limites do seu, sem perceber que na verdade serviam somente para que ele se tornasse cada vez mais multidão. Assim não importava quem estivesse com a mão em seu ombro, em seu peito, eram corpos iguais e o cheiro de suor e cerveja inebriava a todos da mesma maneira.
De repente um toque se fez diferente dos outros. Intenso, quente. Pensou em voltar- se e ver a que rosto ele pertencia, mas talvez fosse bom continuar apenas imaginando enquanto dançavam no meio de tanta alegria. O contato daquela pele foi ficando cada vez mais necessário e agora os dois pulavam como se fossem um. Sentia um hálito quente em seu pescoço e a vontade era de se virar imediatamente e tomar aquela boca na sua, ainda que não soubesse a quem pertencia. Era Carnaval e o resto não importava. A maneira como aquelas mãos seguravam o seu quadril quase lhe garantia que eram as mãos de um grande amor e seu corpo explodia em desejo. O sol quente sobre as cabeças ligeiramente bêbadas, as marchinhas incessantes, o colorido das fantasias, tudo aquilo foi tornando cada vez mais urgente o momento em que finalmente veria a quem pertencia aquela pele tão incendiável. Virou-se. E qual não foi a sua surpresa ao perceber que as mãos que antes o matavam de desejo eram de um homem de pele enrugada e seca. Um velho mesmo, mais de setenta anos, talvez. O velho sorriu. Um sorriso sem dente que ele considerou como a pior das ofensas e teve vontade de lhe bater e talvez se não houvesse tanta cerveja e seus braços respondessem com um pouco mais de eficiência, teria sido mesmo capaz:
- Agora não gosta mais, meu rapaz?
Foi esta a frase que saiu da boca amarga daquele velho, que escondia ainda um pouco de cinismo, talvez o pior de tudo.
- Antes tava gostoso, não tava? Fala, meu rapaz.
Ele só queria esquecer e seguir, mas o velho insistia como se tivessem vivido um intenso romance (e tinham mesmo) e a sua presença era uma espécie de ofensa ao seu corpo jovem e musculoso, trabalhado com tanto cuidado para servir somente a outros corpos exatamente iguais ao seu. Ia bater no velho, ia acabar com aqueles ossos frágeis, quebrá-los um por um, para que nunca mais pudesse fazer uma safadeza dessas com alguém como ele. Mas antes que tivesse tempo o velho desapareceu na multidão de corpos e gritos. Ele seguiu. E sentiu saudades.

2 Comments:

At 10:38 PM, Blogger Sethico said...

O menino também puxava, nos becos de sua aldeia, por um barbante sujo

umas latas tristes.

Era sempre um barbante sujo.

Eram sempre umas latas tristes.

 
At 5:22 PM, Blogger Sethico said...

Se vc pudesse fazer tudo...
O que faria?

 

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